Raio-X

O céu parece trincar-se

no instante:

quando um raio,

de traço imperfeito,

retorcido, feito

um traço por mim feito,

feito graveto, seco.

Faz…

 

Um corte seco, no céu.

Tão fugaz

que não se faz

legítimo ao olhar.

É agudo, intrínseco.

É um escapar.

Um piscar…

Um risco, na alma.

13

Semana que vem já é dezembro

dezembro vermelho de natal.

Pra mim, a data de maior dengo,

onde a pureza passa a ser natural.

 

Putz! Semana que vem já é dezembro!

Num descuido mais um ano se vai

eu nunca sei qual o tempo do tempo

e nesse meio tempo, as rugas aparecem, quando o rosto se contrai.

 

Na verdade, o tempo é abstrato.

O engraçado é que ele não volta,

mas nunca passa quando guardado

em retratos na memória.

 

Lembro dos meus tempos de pequeno

a esse tempo sim, me rendo.

Se possível, o teria vivido o mais lento

não pelo tempo, pelos momentos.

 

Naquele tempo, o natal era muito vermelho

apesar da casa velha, sem chaminé

de pé em pé, o Noel estava lá dentro

e antes d’eu abrir o olho, ele dava no pé.

 

Meu presente na árvore ele sempre deixava

nem sempre era o que eu pedia nas cartas,

mas nunca vi muita diferença entre ouro e lata

vigiar o Noel era o que me fascinava.

 

O presente só é verdadeiro e bom

quando temos o dom

de olhar e fazer do objeto

apenas o veículo do afeto.

 

Infelizmente, hoje o natal

se tornou apenas uma data comercial.

As pessoas só renascem,

para as próprias e mesmas vaidades.

 

Busco renascer, mas não do zero

pra ser sincero, talvez por intuição,

penso que nunca teremos as costas leves

cada um sempre carregará seu quinhão.

 

Apesar do quinhão ser meu,

o peso da verdade só pertence à Deus.

Conformo-me com o peso do acaso

?Vai ver o acaso é a própria verdade! (…)?

 

Ah! Mas deixa disso, quero apenas

tornar meu silêncio intenso

pra deixar minha alma serena

e não se espantar com os medos de dentro.

 

Apesar de ainda ter o bigode fino,

percebo que já não sou tão menino.

Vejo que o natal é mais que um Papai Noel

isso eu percebi, me transcrevendo no papel.

 

Mas eu ainda tenho bigode fino

e pro bom velhinho escrevi minha carta,

pedindo mais bigode e olhos de menino

para que eu não veja o mundo com tanto pessimismo e mágoa.

Olhos Mansos

O olho arde ao que vê

afoga o que não é visto.

 

O escuro acolhe, par de olhos

que amargam

lágrimas não caídas.

 

O escurecer dorme, par de olhos

descansam,

lágrimas são caídas.

Quão e quais

Disfarço-me de músico

pra tentar te dizer

que de você, quero estar junto.

Faço do violão, a voz do coração,

mas o tom sempre desafina

por que ultimamente

meu coração só grita.

 

Então, torno-me escritor

pra tentar te dizer,

quão grande é meu amor.

Faço das palavras, espelho da minha alma,

mas a escrita vira um rabisco

por que ultimamente

minha alma é um grito.

 

Eu nunca consigo

não importa de quantas formas,

mostrar-te tudo que sinto

por que quando ouço tua voz,

algo diferente acontece

sem parar, feito reticências …

meu amor por você, cresce.

 

Não é o que eu sinto

é o que você me faz sentir.

Eu só quero fazer pra ti,

o bem que tu faz a mim,

mas não adianta eu tentar te dar

você tem que encontrar

no meu olhar.

 

 

Um cais

Eu sei. Sei que o sossegar lhe causa angustia. Sei que você sempre acorda assustada por que não quer deixar de sonhar. Quer viver um sonho, fazer da vida um sonho. Você quer a vida, toda. Viver cada hora, minuto, segundo, milésimo… você quer o mundo que não cabe na janela e o tempo que não é contando pelos ponteiros, você quer pulsar.

Nem importo quando não sei qual é a hora e por onde anda o sol. Tudo se dispersa quando meu pulso pulsa no ritmo da respiração lenta, quando você começa a adormecer. O sono chega, mas eu fico acordado olhando pro teto, aproveitando o momento quando tenho tudo que não cabe na janela, ali, numa cama de solteiro. Às vezes uma lágrima escorre pelo rosto – nunca sei por que, mas rapidamente e com todo o cuidado pra não lhe acordar, eu me viro de lado e a lágrima seca no travesseiro. E eu fico te vendo dormir… seu sossego é meu cais.

A janela nos deixa tão distante de tudo, que quando o sol entra pela cortina trazendo um pouco do mundo lá fora, eu assusto como você, ao acorda de um sonho. Lá fora, tem um mundo em movimento, que não para e está sempre dando voltas. Em torno de si e entorno do sol. No meio dessas voltas, tem dias que o mundo se volta contra a gente e dias, que a sensação que fica, é de que o mundo gira, gira, gira e continua no mesmo lugar. As velhas misérias, injustiças, poderes continuam, às vezes disfarçadas com gravatas e mídias, mas são as mesmas.

Não tenho mais esses dias. Tenho a ternura e a eternidade do teu sossego.

Já me virei contra o mundo, odiei mais da metade da minha família e me afogava toda vez que engolia um choro. Já acreditei no destino e pior, sentia orgulho em herdar o legado do pai, afinal, eu fui preparado para isso. Já fiquei sozinho contra o mundo e “é solitário andar por entre a gente”, acordar sozinho, tomar café sozinho, almoçar sozinho, ver TV sozinho, ficar sozinho… se sentir sozinho desde de os 10 anos.E passei a me alimentar disso e do rancor que trazia no peito. Acostumei a ser frio para ser firme – e frio doí, na alma.

Já me virei contra mim mesmo também. Passou um tempo, 6 ou 7 anos até que eu não acreditasse mais que meu destino era o legado do meu pai, e ele foi apenas mais um que odiei. Desacreditei também no próprio destino e já não tinha nada para acreditar. Já não tinha restado muita coisa de mim. Só vazio. Quando me olhei por dentro, vi que não tinha volta e que eu era tão amargo quanto o mundo que eu nunca entendi.

É irônico que a maioria das pessoas gostem do meu jeito, para elas sou quieto e tímido quando na verdade sou frio e sem interesse. Que meu jeito calmo é só uma pose para que ninguém saiba do meu desespero. É irônico, como as crianças se aproximam de mim para brincar por que eu não sei o que é ser criança. É irônico eu querer sua atenção quando tudo o que eu fiz até hoje, foi me esconder de todos. Não, isso não é irônico. Não é irônico eu não sonhar e sonhar com você. Não foi ironia aquela lua amarela depois da caneca. Não foi ironia perdermos os colares para ganharmos alianças. Não é ironia você ser de gêmeos e eu de virgem. É amor.

Foi o amor. Foi você quem me salvou e me fez melhor. Você coloriu meu mundo cinza e me fez acreditar, na vida, no mundo, em mim e no amor. É você quem me salva todos os dias com um boa noite, é você que deixa o mundo mais bonito.

Dia desses, eu lhe disse que era difícil ser bom hoje em dia, mas mais raro ainda é encontrar alguém que deixe o mundo mais bonito. Sem esforço, só sendo. Está no seu olhar, no sorriso, na paciência, no corpo, sua roupa, sapato, seu caminhar e tudo vai se colorindo e o mundo fica bonito.

Em um outro dia desses também, você disse que eu era muito otimista e eu sei o quanto isso lhe irrita assim como o sossego e isso sim é irônico por que você é a causa do meu lado bom e otimista. Foi a partir de você que a vida fez sentido e eu comecei a ver esperança no mundo.

Ainda continuo meio rabugento, mas eu continuo… por você e pelo Tandy, Jr.

Feche o livro

e leia-me

folheei, mastigue.

Que o autor

é desconhecido.

É nítido

que preciso,

de um ninho, cúmplice.

Então, se arrisque,

colo, acolha-me.

Deixe o que vier

e venha.

Insista, fique

pois, só você conhece

todo o desconhecido.

 

 

Quero uma casa no interior.

Rua de pedra, duas portas,

e três janelas, no máximo

e só,

e só envelhecer.

 

Ter o tempo em rugas:

com a pele desenhada

por todos meus destinos.

E não,

não envelhecer.

 

Tomar leite com farinha de milho,

numa manhã morna

enquanto o sol acorda..

e só,

só amanhecer.

 

Um céu escuro a assobiar.

E entre brilhos e brisa,

abrir portas e janelas

e só,

só dispersar.

 

Ter a companhia da gaita,

pra momentos de tristeza.

E um céu escuro a assobiar…

E só,

solidão.

 

Ter um dia a mais ou a menos

E no meio destes,

29 de fevereiro.

E só,

e sobrar.

 

Quero o esquecimento

da moeda, da cruz, do prédio

e do resto. Da vida e da morte,

e vice-versa…

E só. E pó.

Ontem

Um boa noite,

às vezes

é um eu te amo.

 

Acendi uma vela

e esperei…

Por atenção.

 

Esperei,

por um boa noite

até não haver mais chama.

 

E esperei…

noites,

costumam ser frias.

 

O pavio acaba.

A vela queima.

E o frio da noite, me resgata.

Que importa?

É sufocante

correr contra a corrente

que corre nas veias.

O sangue é um selo!

Sentes orgulho?

Do soldado.

 

É amargo, o pulsar

e covarde, o destino

que me faz entorpecido.

Devoto

Quando o céu está sem nuvens

meu caminho é sem curvas

 

quando está bordado em nuvens

meu caminho é cem curvas

 

ah! É um encanto, o céu

imenso e pleno,

ao mesmo tempo.

Meu Diário Blue

Linha, traços, pedaços,

a te, me guardo.

 

Perdoe-me,

se algum dia minha lágrima,

borrar-te as páginas…

É que tenho medo, muitos.

Não se assuste… ou assuste…

Apenas abstraia-me.

 

Prometo,

esforçar uma letra bordada.

Terás uma casa sobe meu travesseiro

meus sonhos, serão tuas viagens.

Sobe a pele de meu peito, direito,

carregarei tua chave.

 

Prometo,

cuidar-te e dular-te.

 

Quando passar em branco,

é para acolher o grito que traz teu silêncio,

inverter os papeis, e ser teu manto.

 

Sinto,

que apesar de minha alma,

ser tão frágil como a material de tuas paginas,

uma vez escrito, unidos

nada rompera este vinculo.

Mais que registro, é vivo. Um.

 

Feri-me saber,

que irei borrar-te

com muitas lágrimas…

Apenas abstraia-me,

e me ame

como te amo todos os dias,

não é por acaso, Diário.

Desses dias

Dia desses,

eu quis o nunca

depois o sempre.

Dia desses,

a gente se perde.

 

Dia desses,

quis o sempre

pra ter o nunca.

Em dia desses,

a gente quase se encontra.

 

Dia desses,

todo o vermelho

era puro sangue.

Dia desses,

a gente sangra.

 

Todos os dias

o céu sugere-me

uma conversa.

Dia desses,

olhei para cima sem relógio.

 

Dia este,

entre o sempre e nunca

a pausa foi selada.

Dia este,

essa gente deixou de ser um quase.

 

Dia desses,

são dias, só.

E esse vermelho,

em algum dia, desses,

não será mais por sangrar.

Colecionador de domingos

Tinha o que tinha,

tinha mais do que tinha.

 

Tem dias que a vida,

se desenha tão simples

e fácil de ser vivida..

 

Domingos de vó e fumaça.

Domingos de criança sem idades.

Domingos de sofá sem braços.

De casos e histórias,

de fantasias entre rachaduras,

de risos de muitas rachaduras.

Domingos de casa.

 

Quanto ao lado de fora,

a hostilidade do mundo

nunca pareceu-me tão pequena quanto hoje,

o dia que passei a colecionar domingos.

Das conversas

Se você fosse cega,

eu coloriria sua tela.

Se você fosse surda,

faria do nosso namoro, música.

E se você fosse muda,

ah! Estaríamos casados, com filhos em fartura.

 

Se você não fosse brava.

nosso namoro não teria graça.

Se você não gostasse de Oasis,

nosso namoro seria um porre, como as leis.

E se você não fosse bruxa,

ah! Teu apelido seria: flor murcha.

 

E se você fosse até uma virginiana,

eu ainda assim te amaria, como te amo.

 

O que você fosse… eu te amaria,

mas ainda bem que você é.

Folha de rosto

Poemas são mancos,

a poesia está no branco.

 

De tanto andar em linhas,

tropeçando em palavras

catando rimas,

ritmos e demasias,

a perna se atrofia.

Poemas são mancos

a poesia está no branco [da folha, do olho.

 

O vazio é uma eternidade.

O que é invisível está no olhar

e somente.

Somente vire a folha.

 

 

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À Rosa

 

Se às vezes forço a barra,

com alguma piada sem graça.

Se me disfarço de músico,

pra dizer que quero estar junto

ou quando pareço exagerado

ao abandonar a tripulação do barco

e navegar a cidade por uma Rosa…

 

Desculpe.

Se tento te causar espanto,

é por que eu te amo tanto.

 

Se às vezes te peço calma,

é por que estou em karma.

Se às vezes sumo,

é por medo de dizer que quero estar junto.

Se não falo do meu passado,

é por que é um barco naufragado.

E no fundo do oceano encontrei uma Rosa…

 

Desculpe…

É que, pra ser franco,

essa Rosa me causa tanto espanto.

 

Se às vezes invado teu espaço,

querendo juntar teus pedaços.

Se tento te proteger,

das gêmeas que sei que não são você

ou quando te olho sem cessar,

no oceano dos teus olhos,

querendo ir até o fundo, mesmo se for afogar…

 

Por favor,

Não faça de mim um estranho.

Faça do seu punho meu pulso.

Guarde-me as tempestades desse oceano.

Deixe que meu pulso sangre,

até a última gota de sangue

depois jogue-me no fundo do oceano.

Lá encontrei minha Rosa.

Avulso

Ando por aí avulso

por aí é um caminho.

O passo vem do pulso.

 

O pulso não pausa

o caminho é por aí

sem fim nem pautas.

 

Por mim,

entre linhas e veias

teço-me por aí.

Do avesso ao verso 

Ultimamente, tudo vira verso.

Primeiramente, você tornou-se meu avesso.

Confesso… Ultimamente,

tudo tens virado verso.

 

Essa interrogação,

é respondida pelo próprio sarcasmo

com que foi perguntado:

-O que seria do verso, se não fosse o avesso?

Ironia

A tecnologia avança,

na mesma medida,

paços atrás a gente anda;

– Caminhos de curupira.

 

Alguns esforços se resumem

em criar robôs a nossa semelhança,

cientistas com almas de crianças

criam brinquedos de grande volume.

 

Quase humanos, eles cantam

dançam e fazem charme.

Tudo isso e com um bônus:

não tem mal de Alzheimer.

 

Os avanços tecnológicos

tornam robôs mais humanos

e humanos frios e gananciosos

(…) humanos menos humanos.

 

Nossos esforços se resumem,

em viver uma rotina mecânica

fazemos parte apenas de um cronograma

e de praticar a compaixão, perdemos o costume.

 

Menos humanos, somos puídos

em olhar apenas o próprio umbigo de ferro,

com a prepotência de sermos evoluídos

somos enferrujados pelo ego.

 

Uma relação de simbiose:

robôs quase humanos,

humanos quase androides.

Uma relação de ironia

mais irônico ainda

é pensar que talvez essa seja a única saída,

já que nosso combustível incolor está secando.

Poema

Quando o grito amadurece,

torna-se silêncio.

Quanto o silêncio, é quando:

ecos

de seus ecos

   e mais ecos

encurralam o grito

no beco de seus ecos,

até que o silêncio amadurece

e torna-se um eco, no singular.

Votos

Eu te amo quando você está alegre.

Eu te amo quando você está nervosa.

Quando você está feliz, amo tudo à minha volta.

Quando está triste, eu te amo com a força de um vulcão.

Eu te amo, toda vez que seguro tua mão

E deixo todo meu amor com você quando à solto.

Amo, quando você segura e escode o sorriso de mim

E amo quando você não consegue segurar e sorri.

Amo o som dos seus inúmeros estalos diários

E amo o silêncio acompanhado do nosso tato.

Eu te amo quando você não se faz de forte

E te amo por eu não precisar me fazer de forte

E apesar de doer, quando não tenho tua atenção…

Eu te amo, toda vez que seguro tua mão

E deixo todo meu amor com você quando à solto.

Nós

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A única coisa cega,

No amor

São seus nós;

Feitos de nossos

Dedos, desejos, fibras,

Medos e olhares sujeitos.

Pra que não fiquemos sujeitos

Independente do que vier

Um do outro

Estarmos sós.

Somos um, somos nós.

Quarto

Vejo apenas paredes

E duas rachaduras.

A porta e a janela

Estão enraizadas;

Vejo apenas paredes

E uma lâmpada no teto.

A luz está enferrujada,

Está escuro.

Leio bem esse escuro

Posso ver tudo, qualquer.

Tudo que vejo são paredes

E suas rachaduras

Duas,

Como meus olhos

Que permanecem fechados.

 

Talvez eu seja analfabeto.

Obrigado!

* Dia dela, D. Mara.

Não sô fã de calendários.

Tão pouco dos aniversários.

Nos prendemos em círculos

E voltamos sempre ao início

Esquecendo que a vida é fio retilíneo.

 

Também não sô fã do mercado,

Nem sempre o presente vem de bom grado.

Sem perceber somos materializados

E ao comprar o presente,

Acabamos sendo comprados

 

Talvez eu seja chato

De querer dar lição

Em pleno aniversário.

Mas o que eu quero dizer

É que o tempo é o presente

Sem passado nem futuro,

Sem preços e embrulhos.

 

Falando em aniversário

Antes de fazer meu primeiro,

Essa cultura já havia feito vários,

Então se não lhe der um presente, fico sem jeito.

 

Mas em nenhuma vitrine,

Vejo algum objeto

Que se torne um presente

Que comporte meu afeto.

 

Sempre tenho dúvida sobre o muito

O que é muito? 54 anos ou um turno?

Papeis de reais ou um rascunho?

Não sei…

Mas acho que ter muito

É se esquecer do cujo.

 

Em meio a dúvida acho engraçado,

Você fazer aniversário e eu ser presenteado

Pois, o tempo é um presente

E de viver o presente ao seu lado

Sou abençoado… muito…

Muito obrigado!

Solidão é Alma

Solidão é alma

Faz do silêncio, sua conversa

Sem atalhos e muros

O escuro, acende a chama da vela.

 

Barco a velas é mar

O vento sopra, as ondas se movem

Sem semáforos nem motor

A imensidão se faz volante, por si só.

 

O medo nos encolhe.

O escuro não é obscuro

E da própria sombra, a gente foge.

 

O mar não tem norte nem lados.

O vazio não é sombrio

Ser vago é o que nos torna bravos.

Neblina

 

Eu devia estar apavorado

Com tudo desmoronando;

Ou estar com medo

Por sentir amor;

Sentir-me culpado

Por deixar o gelo derreter;

Ou sentir-me cinza

Neste dia de neblina.

 

Devia estar com nó na garganta

Por estar vestido em nós cegos;

Ou pisar no freio

Quando o amor acelera;

Devia procurar a resposta

Mas a dúvida convenceu-me;

Devia estar perdido

E apesar de estar, não me sentir em abrigo.

 

Não devia querer navegar

Quando a tempestade acorda o mar;

Não devia sentir-me bem

No meio de tanto caos;

Não devia fazer da poesia

Esse rabisco da minha vida;

Não devia querer que minha vida

Um dia se torne poesia.

Ser o caminho

Tudo é necessário

Mesmo quando o padeiro for o diabo,

Comer o pão é necessário

Até quando tudo estiver dando errado

Errar é sábio

E o sentido…

O sentido nunca é sensato.

 

Não procure atalhos

Mesmo que o caminho pareça amargo,

Não olhe para os lados

Procurando um caminho contrário

Sinta cada passo

E o destino…

O destino é apenas o acaso.

 

Existem várias receitas

Para se ter uma vida perfeita.

Perfeição? Isso não me conduz.

O caminho mais curto? Não me seduz.

Não quero sucesso nem ser correto

Prefiro carregar minha cruz

O seu peso me traduz e me introduz

Ao mundo de forma nu.

O que me faz vivo

É saber que sou o próprio caminho!

História em poesia, sem rima

Ele pediu-a uma promessa.

Ela não fez. Não quis.

 

Ela se fingia de bêbada,

Camuflada, não queria esconder as palavras,

Para poder falar de dor e passado.

Um passado que não se sabe

Se é estreito ou largo.

E depois de sangrar o passado

Ela pediu e ele a prometeu:

– Nunca vou lhe abandonar!

Depois abraçou-a forte

Como quem diz: não se preocupe,

Com destino, futuro ou sorte

Temos um ao outro, isso é maior que a morte.

(…) Ele tinha essa mania,

De querer falar através de abraços.

 

Ainda abraçados, ele pediu-a uma promessa.

Ela não fez. Não quis.

Então, ele perguntou-a:

– Achas que mudei muito? Desde quando era aquele homem de 12 anos?

Ela não respondeu. Também não quis.

Ignorou, e disse: – Não lhe conhecia, só o olhava por vista.

Talvez se ela estivesse bêbada de verdade

Teria respondido a pergunta.

Mas não faltou álcool, faltou coragem

Ou talvez ela não soubesse mesmo

E talvez continue sem saber

Que ele havia mudado. Que ela o mudou.

O homem de 21 anos, apesar de,

Ainda ter a velha alma cinza em neblina,

Já não tinha o coração amargo,

Rancor nas costas e olhar frio

Tudo isso dissolveu-se

Quando ele fez dos cachos dela, seu ninho.

 

– Promete não desistir de mim?

Foi o pedido que ele havia feito.

Foi irrelevante o volume

Das doses de álcool, medo e coragem.

Ela não hesitou, agiu feito guilhotina

Foi fria, firme e breve

Como aquele homem de 12 anos…

Ela não prometeu. Nunca quis.

 

Sereno

Aprendi a gostar dos meus domingos

Neles me desprendo da correria do dia a dia

Sem compromissos, me sinto à deriva

Fico apenas tentando ler o que foi escrito nas entrelinhas

 

No domingo, eu cedo me levando,

Tomo café e um bom banho

E de cara, no chão me esparramo

Sem quase nenhum movimento

Torno meu domingo um silêncio

Nesse silêncio aprendo a decifrar,

A linguagem do soprar dos ventos

E nessa brisa as entrelinhas me dizem: só é preciso respirar

Fecho os olhos e presto atenção

No momento em que o ar enche e esvazia meu pulmão

(…)

Ê … só respirar vai muito além da razão.

 

Abro os olhos e me deparo com o céu infinito

Me perco no seu azul e apenas o admiro

Sinceramente? Viver? Não vejo nenhum sentido

Mas respeito minha ignorância

E deixo tudo nas mãos do destino.

Confio! Já que essa mão me colocou,

Em um útero que nunca me faltou amor

(…)

O infinito do céu fica pequeno, perto desse sentimento.

 

São nesses dias devagar que encontro minha paz.

E nessa rotina, ninguém percebe a essência da vida

As pessoas respiram, mas não param para respirar

Isso não é respirar é se sufocar.

 

Quase sozinho, passo o dia deitado

Sobre a luz e a sombra do sol

Sobre essa metáfora descubro que dentro de mim nunca estarei só.

Primeiros Pontos

Pontos e Abismos

 

Amarrar os pontos

Jogar-se ao abismo.

 

Pontos e abismos,

Opostos e sinônimos

Sem medida,

Ambos são infinitos

Sem respostas,

Ambos são equilíbrio.

 

Não evitar o conflito

Buscar atrito e se perder

Entre pontos e abismos.

 

O primeiro post é um saco, por que ele carrega a responsabilidade de ser o primeiro post. Assim como o primeiro beijo e as primeiras coisas que fazemos.

Bom, eu sou meio cru e virgem nesse lance de blog e de escrever, então não sei o que escrever no primeiro post: se me apresento, explico o nome da página ou tento mostrar minhas intenções e pretensões em relação a essa criação. Não sei!

Bom, não sou muito fã de apresentações, e ela é desnecessária pois, cada texto e poema que for publicado, trará um parte de mim e me apresentará mais do que essas formalidades. O nome da página e as minhas intenções ao cria-lá não vou explicar por que não estou com vontade (rs) – são coisas bem subjetivas e se eu fosse dissertar sobre elas, acabaria escrevendo muita coisa e não dizendo nada. Por isso o poeminha curto.

Então… sem apresentações e explicações. E prefiro que seja assim, prefiro o caos que as dúvidas trazem. E como o primeiro post carrega o peso de ser o primeiro, vou pegar umas palavras emprestadas do Humberto Gessinger para salvar meu post.

POEM(*)S COM NOTA DE RODAPÉ

(*uma perda de tempo ao quadrado)

Poemas seriam perda de tempo? E notas de rodapé?

Se ainda vale a matemática que me ensinaram,

dois números negativos multiplicados

resultam num número positivo.

Espero que uma perda de tempo ao quadrado

seja um ganho… de tempo.