Quarto

Vejo apenas paredes

E duas rachaduras.

A porta e a janela

Estão enraizadas;

Vejo apenas paredes

E uma lâmpada no teto.

A luz está enferrujada,

Está escuro.

Leio bem esse escuro

Posso ver tudo, qualquer.

Tudo que vejo são paredes

E suas rachaduras

Duas,

Como meus olhos

Que permanecem fechados.

 

Talvez eu seja analfabeto.

Obrigado!

* Dia dela, D. Mara.

Não sô fã de calendários.

Tão pouco dos aniversários.

Nos prendemos em círculos

E voltamos sempre ao início

Esquecendo que a vida é fio retilíneo.

 

Também não sô fã do mercado,

Nem sempre o presente vem de bom grado.

Sem perceber somos materializados

E ao comprar o presente,

Acabamos sendo comprados

 

Talvez eu seja chato

De querer dar lição

Em pleno aniversário.

Mas o que eu quero dizer

É que o tempo é o presente

Sem passado nem futuro,

Sem preços e embrulhos.

 

Falando em aniversário

Antes de fazer meu primeiro,

Essa cultura já havia feito vários,

Então se não lhe der um presente, fico sem jeito.

 

Mas em nenhuma vitrine,

Vejo algum objeto

Que se torne um presente

Que comporte meu afeto.

 

Sempre tenho dúvida sobre o muito

O que é muito? 54 anos ou um turno?

Papeis de reais ou um rascunho?

Não sei…

Mas acho que ter muito

É se esquecer do cujo.

 

Em meio a dúvida acho engraçado,

Você fazer aniversário e eu ser presenteado

Pois, o tempo é um presente

E de viver o presente ao seu lado

Sou abençoado… muito…

Muito obrigado!

Solidão é Alma

Solidão é alma

Faz do silêncio, sua conversa

Sem atalhos e muros

O escuro, acende a chama da vela.

 

Barco a velas é mar

O vento sopra, as ondas se movem

Sem semáforos nem motor

A imensidão se faz volante, por si só.

 

O medo nos encolhe.

O escuro não é obscuro

E da própria sombra, a gente foge.

 

O mar não tem norte nem lados.

O vazio não é sombrio

Ser vago é o que nos torna bravos.

Neblina

 

Eu devia estar apavorado

Com tudo desmoronando;

Ou estar com medo

Por sentir amor;

Sentir-me culpado

Por deixar o gelo derreter;

Ou sentir-me cinza

Neste dia de neblina.

 

Devia estar com nó na garganta

Por estar vestido em nós cegos;

Ou pisar no freio

Quando o amor acelera;

Devia procurar a resposta

Mas a dúvida convenceu-me;

Devia estar perdido

E apesar de estar, não me sentir em abrigo.

 

Não devia querer navegar

Quando a tempestade acorda o mar;

Não devia sentir-me bem

No meio de tanto caos;

Não devia fazer da poesia

Esse rabisco da minha vida;

Não devia querer que minha vida

Um dia se torne poesia.

Ser o caminho

Tudo é necessário

Mesmo quando o padeiro for o diabo,

Comer o pão é necessário

Até quando tudo estiver dando errado

Errar é sábio

E o sentido…

O sentido nunca é sensato.

 

Não procure atalhos

Mesmo que o caminho pareça amargo,

Não olhe para os lados

Procurando um caminho contrário

Sinta cada passo

E o destino…

O destino é apenas o acaso.

 

Existem várias receitas

Para se ter uma vida perfeita.

Perfeição? Isso não me conduz.

O caminho mais curto? Não me seduz.

Não quero sucesso nem ser correto

Prefiro carregar minha cruz

O seu peso me traduz e me introduz

Ao mundo de forma nu.

O que me faz vivo

É saber que sou o próprio caminho!

História em poesia, sem rima

Ele pediu-a uma promessa.

Ela não fez. Não quis.

 

Ela se fingia de bêbada,

Camuflada, não queria esconder as palavras,

Para poder falar de dor e passado.

Um passado que não se sabe

Se é estreito ou largo.

E depois de sangrar o passado

Ela pediu e ele a prometeu:

– Nunca vou lhe abandonar!

Depois abraçou-a forte

Como quem diz: não se preocupe,

Com destino, futuro ou sorte

Temos um ao outro, isso é maior que a morte.

(…) Ele tinha essa mania,

De querer falar através de abraços.

 

Ainda abraçados, ele pediu-a uma promessa.

Ela não fez. Não quis.

Então, ele perguntou-a:

– Achas que mudei muito? Desde quando era aquele homem de 12 anos?

Ela não respondeu. Também não quis.

Ignorou, e disse: – Não lhe conhecia, só o olhava por vista.

Talvez se ela estivesse bêbada de verdade

Teria respondido a pergunta.

Mas não faltou álcool, faltou coragem

Ou talvez ela não soubesse mesmo

E talvez continue sem saber

Que ele havia mudado. Que ela o mudou.

O homem de 21 anos, apesar de,

Ainda ter a velha alma cinza em neblina,

Já não tinha o coração amargo,

Rancor nas costas e olhar frio

Tudo isso dissolveu-se

Quando ele fez dos cachos dela, seu ninho.

 

– Promete não desistir de mim?

Foi o pedido que ele havia feito.

Foi irrelevante o volume

Das doses de álcool, medo e coragem.

Ela não hesitou, agiu feito guilhotina

Foi fria, firme e breve

Como aquele homem de 12 anos…

Ela não prometeu. Nunca quis.