Um cais

Eu sei. Sei que o sossegar lhe causa angustia. Sei que você sempre acorda assustada por que não quer deixar de sonhar. Quer viver um sonho, fazer da vida um sonho. Você quer a vida, toda. Viver cada hora, minuto, segundo, milésimo… você quer o mundo que não cabe na janela e o tempo que não é contando pelos ponteiros, você quer pulsar.

Nem importo quando não sei qual é a hora e por onde anda o sol. Tudo se dispersa quando meu pulso pulsa no ritmo da respiração lenta, quando você começa a adormecer. O sono chega, mas eu fico acordado olhando pro teto, aproveitando o momento quando tenho tudo que não cabe na janela, ali, numa cama de solteiro. Às vezes uma lágrima escorre pelo rosto – nunca sei por que, mas rapidamente e com todo o cuidado pra não lhe acordar, eu me viro de lado e a lágrima seca no travesseiro. E eu fico te vendo dormir… seu sossego é meu cais.

A janela nos deixa tão distante de tudo, que quando o sol entra pela cortina trazendo um pouco do mundo lá fora, eu assusto como você, ao acorda de um sonho. Lá fora, tem um mundo em movimento, que não para e está sempre dando voltas. Em torno de si e entorno do sol. No meio dessas voltas, tem dias que o mundo se volta contra a gente e dias, que a sensação que fica, é de que o mundo gira, gira, gira e continua no mesmo lugar. As velhas misérias, injustiças, poderes continuam, às vezes disfarçadas com gravatas e mídias, mas são as mesmas.

Não tenho mais esses dias. Tenho a ternura e a eternidade do teu sossego.

Já me virei contra o mundo, odiei mais da metade da minha família e me afogava toda vez que engolia um choro. Já acreditei no destino e pior, sentia orgulho em herdar o legado do pai, afinal, eu fui preparado para isso. Já fiquei sozinho contra o mundo e “é solitário andar por entre a gente”, acordar sozinho, tomar café sozinho, almoçar sozinho, ver TV sozinho, ficar sozinho… se sentir sozinho desde de os 10 anos.E passei a me alimentar disso e do rancor que trazia no peito. Acostumei a ser frio para ser firme – e frio doí, na alma.

Já me virei contra mim mesmo também. Passou um tempo, 6 ou 7 anos até que eu não acreditasse mais que meu destino era o legado do meu pai, e ele foi apenas mais um que odiei. Desacreditei também no próprio destino e já não tinha nada para acreditar. Já não tinha restado muita coisa de mim. Só vazio. Quando me olhei por dentro, vi que não tinha volta e que eu era tão amargo quanto o mundo que eu nunca entendi.

É irônico que a maioria das pessoas gostem do meu jeito, para elas sou quieto e tímido quando na verdade sou frio e sem interesse. Que meu jeito calmo é só uma pose para que ninguém saiba do meu desespero. É irônico, como as crianças se aproximam de mim para brincar por que eu não sei o que é ser criança. É irônico eu querer sua atenção quando tudo o que eu fiz até hoje, foi me esconder de todos. Não, isso não é irônico. Não é irônico eu não sonhar e sonhar com você. Não foi ironia aquela lua amarela depois da caneca. Não foi ironia perdermos os colares para ganharmos alianças. Não é ironia você ser de gêmeos e eu de virgem. É amor.

Foi o amor. Foi você quem me salvou e me fez melhor. Você coloriu meu mundo cinza e me fez acreditar, na vida, no mundo, em mim e no amor. É você quem me salva todos os dias com um boa noite, é você que deixa o mundo mais bonito.

Dia desses, eu lhe disse que era difícil ser bom hoje em dia, mas mais raro ainda é encontrar alguém que deixe o mundo mais bonito. Sem esforço, só sendo. Está no seu olhar, no sorriso, na paciência, no corpo, sua roupa, sapato, seu caminhar e tudo vai se colorindo e o mundo fica bonito.

Em um outro dia desses também, você disse que eu era muito otimista e eu sei o quanto isso lhe irrita assim como o sossego e isso sim é irônico por que você é a causa do meu lado bom e otimista. Foi a partir de você que a vida fez sentido e eu comecei a ver esperança no mundo.

Ainda continuo meio rabugento, mas eu continuo… por você e pelo Tandy, Jr.

Feche o livro

e leia-me

folheei, mastigue.

Que o autor

é desconhecido.

É nítido

que preciso,

de um ninho, cúmplice.

Então, se arrisque,

colo, acolha-me.

Deixe o que vier

e venha.

Insista, fique

pois, só você conhece

todo o desconhecido.