Raio-X

O céu parece trincar-se

no instante:

quando um raio,

de traço imperfeito,

retorcido, feito

um traço por mim feito,

feito graveto, seco.

Faz…

 

Um corte seco, no céu.

Tão fugaz

que não se faz

legítimo ao olhar.

É agudo, intrínseco.

É um escapar.

Um piscar…

Um risco, na alma.

13

Semana que vem já é dezembro

dezembro vermelho de natal.

Pra mim, a data de maior dengo,

onde a pureza passa a ser natural.

 

Putz! Semana que vem já é dezembro!

Num descuido mais um ano se vai

eu nunca sei qual o tempo do tempo

e nesse meio tempo, as rugas aparecem, quando o rosto se contrai.

 

Na verdade, o tempo é abstrato.

O engraçado é que ele não volta,

mas nunca passa quando guardado

em retratos na memória.

 

Lembro dos meus tempos de pequeno

a esse tempo sim, me rendo.

Se possível, o teria vivido o mais lento

não pelo tempo, pelos momentos.

 

Naquele tempo, o natal era muito vermelho

apesar da casa velha, sem chaminé

de pé em pé, o Noel estava lá dentro

e antes d’eu abrir o olho, ele dava no pé.

 

Meu presente na árvore ele sempre deixava

nem sempre era o que eu pedia nas cartas,

mas nunca vi muita diferença entre ouro e lata

vigiar o Noel era o que me fascinava.

 

O presente só é verdadeiro e bom

quando temos o dom

de olhar e fazer do objeto

apenas o veículo do afeto.

 

Infelizmente, hoje o natal

se tornou apenas uma data comercial.

As pessoas só renascem,

para as próprias e mesmas vaidades.

 

Busco renascer, mas não do zero

pra ser sincero, talvez por intuição,

penso que nunca teremos as costas leves

cada um sempre carregará seu quinhão.

 

Apesar do quinhão ser meu,

o peso da verdade só pertence à Deus.

Conformo-me com o peso do acaso

?Vai ver o acaso é a própria verdade! (…)?

 

Ah! Mas deixa disso, quero apenas

tornar meu silêncio intenso

pra deixar minha alma serena

e não se espantar com os medos de dentro.

 

Apesar de ainda ter o bigode fino,

percebo que já não sou tão menino.

Vejo que o natal é mais que um Papai Noel

isso eu percebi, me transcrevendo no papel.

 

Mas eu ainda tenho bigode fino

e pro bom velhinho escrevi minha carta,

pedindo mais bigode e olhos de menino

para que eu não veja o mundo com tanto pessimismo e mágoa.

Olhos Mansos

O olho arde ao que vê

afoga o que não é visto.

 

O escuro acolhe, par de olhos

que amargam

lágrimas não caídas.

 

O escurecer dorme, par de olhos

descansam,

lágrimas são caídas.

Quão e quais

Disfarço-me de músico

pra tentar te dizer

que de você, quero estar junto.

Faço do violão, a voz do coração,

mas o tom sempre desafina

por que ultimamente

meu coração só grita.

 

Então, torno-me escritor

pra tentar te dizer,

quão grande é meu amor.

Faço das palavras, espelho da minha alma,

mas a escrita vira um rabisco

por que ultimamente

minha alma é um grito.

 

Eu nunca consigo

não importa de quantas formas,

mostrar-te tudo que sinto

por que quando ouço tua voz,

algo diferente acontece

sem parar, feito reticências …

meu amor por você, cresce.

 

Não é o que eu sinto

é o que você me faz sentir.

Eu só quero fazer pra ti,

o bem que tu faz a mim,

mas não adianta eu tentar te dar

você tem que encontrar

no meu olhar.

 

 

Um cais

Eu sei. Sei que o sossegar lhe causa angustia. Sei que você sempre acorda assustada por que não quer deixar de sonhar. Quer viver um sonho, fazer da vida um sonho. Você quer a vida, toda. Viver cada hora, minuto, segundo, milésimo… você quer o mundo que não cabe na janela e o tempo que não é contando pelos ponteiros, você quer pulsar.

Nem importo quando não sei qual é a hora e por onde anda o sol. Tudo se dispersa quando meu pulso pulsa no ritmo da respiração lenta, quando você começa a adormecer. O sono chega, mas eu fico acordado olhando pro teto, aproveitando o momento quando tenho tudo que não cabe na janela, ali, numa cama de solteiro. Às vezes uma lágrima escorre pelo rosto – nunca sei por que, mas rapidamente e com todo o cuidado pra não lhe acordar, eu me viro de lado e a lágrima seca no travesseiro. E eu fico te vendo dormir… seu sossego é meu cais.

A janela nos deixa tão distante de tudo, que quando o sol entra pela cortina trazendo um pouco do mundo lá fora, eu assusto como você, ao acorda de um sonho. Lá fora, tem um mundo em movimento, que não para e está sempre dando voltas. Em torno de si e entorno do sol. No meio dessas voltas, tem dias que o mundo se volta contra a gente e dias, que a sensação que fica, é de que o mundo gira, gira, gira e continua no mesmo lugar. As velhas misérias, injustiças, poderes continuam, às vezes disfarçadas com gravatas e mídias, mas são as mesmas.

Não tenho mais esses dias. Tenho a ternura e a eternidade do teu sossego.

Já me virei contra o mundo, odiei mais da metade da minha família e me afogava toda vez que engolia um choro. Já acreditei no destino e pior, sentia orgulho em herdar o legado do pai, afinal, eu fui preparado para isso. Já fiquei sozinho contra o mundo e “é solitário andar por entre a gente”, acordar sozinho, tomar café sozinho, almoçar sozinho, ver TV sozinho, ficar sozinho… se sentir sozinho desde de os 10 anos.E passei a me alimentar disso e do rancor que trazia no peito. Acostumei a ser frio para ser firme – e frio doí, na alma.

Já me virei contra mim mesmo também. Passou um tempo, 6 ou 7 anos até que eu não acreditasse mais que meu destino era o legado do meu pai, e ele foi apenas mais um que odiei. Desacreditei também no próprio destino e já não tinha nada para acreditar. Já não tinha restado muita coisa de mim. Só vazio. Quando me olhei por dentro, vi que não tinha volta e que eu era tão amargo quanto o mundo que eu nunca entendi.

É irônico que a maioria das pessoas gostem do meu jeito, para elas sou quieto e tímido quando na verdade sou frio e sem interesse. Que meu jeito calmo é só uma pose para que ninguém saiba do meu desespero. É irônico, como as crianças se aproximam de mim para brincar por que eu não sei o que é ser criança. É irônico eu querer sua atenção quando tudo o que eu fiz até hoje, foi me esconder de todos. Não, isso não é irônico. Não é irônico eu não sonhar e sonhar com você. Não foi ironia aquela lua amarela depois da caneca. Não foi ironia perdermos os colares para ganharmos alianças. Não é ironia você ser de gêmeos e eu de virgem. É amor.

Foi o amor. Foi você quem me salvou e me fez melhor. Você coloriu meu mundo cinza e me fez acreditar, na vida, no mundo, em mim e no amor. É você quem me salva todos os dias com um boa noite, é você que deixa o mundo mais bonito.

Dia desses, eu lhe disse que era difícil ser bom hoje em dia, mas mais raro ainda é encontrar alguém que deixe o mundo mais bonito. Sem esforço, só sendo. Está no seu olhar, no sorriso, na paciência, no corpo, sua roupa, sapato, seu caminhar e tudo vai se colorindo e o mundo fica bonito.

Em um outro dia desses também, você disse que eu era muito otimista e eu sei o quanto isso lhe irrita assim como o sossego e isso sim é irônico por que você é a causa do meu lado bom e otimista. Foi a partir de você que a vida fez sentido e eu comecei a ver esperança no mundo.

Ainda continuo meio rabugento, mas eu continuo… por você e pelo Tandy, Jr.

Feche o livro

e leia-me

folheei, mastigue.

Que o autor

é desconhecido.

É nítido

que preciso,

de um ninho, cúmplice.

Então, se arrisque,

colo, acolha-me.

Deixe o que vier

e venha.

Insista, fique

pois, só você conhece

todo o desconhecido.

 

 

Quero uma casa no interior.

Rua de pedra, duas portas,

e três janelas, no máximo

e só,

e só envelhecer.

 

Ter o tempo em rugas:

com a pele desenhada

por todos meus destinos.

E não,

não envelhecer.

 

Tomar leite com farinha de milho,

numa manhã morna

enquanto o sol acorda..

e só,

só amanhecer.

 

Um céu escuro a assobiar.

E entre brilhos e brisa,

abrir portas e janelas

e só,

só dispersar.

 

Ter a companhia da gaita,

pra momentos de tristeza.

E um céu escuro a assobiar…

E só,

solidão.

 

Ter um dia a mais ou a menos

E no meio destes,

29 de fevereiro.

E só,

e sobrar.

 

Quero o esquecimento

da moeda, da cruz, do prédio

e do resto. Da vida e da morte,

e vice-versa…

E só. E pó.