Quero uma casa no interior.

Rua de pedra, duas portas,

e três janelas, no máximo

e só,

e só envelhecer.

 

Ter o tempo em rugas:

com a pele desenhada

por todos meus destinos.

E não,

não envelhecer.

 

Tomar leite com farinha de milho,

numa manhã morna

enquanto o sol acorda..

e só,

só amanhecer.

 

Um céu escuro a assobiar.

E entre brilhos e brisa,

abrir portas e janelas

e só,

só dispersar.

 

Ter a companhia da gaita,

pra momentos de tristeza.

E um céu escuro a assobiar…

E só,

solidão.

 

Ter um dia a mais ou a menos

E no meio destes,

29 de fevereiro.

E só,

e sobrar.

 

Quero o esquecimento

da moeda, da cruz, do prédio

e do resto. Da vida e da morte,

e vice-versa…

E só. E pó.

Ontem

Um boa noite,

às vezes

é um eu te amo.

 

Acendi uma vela

e esperei…

Por atenção.

 

Esperei,

por um boa noite

até não haver mais chama.

 

E esperei…

noites,

costumam ser frias.

 

O pavio acaba.

A vela queima.

E o frio da noite, me resgata.

Que importa?

É sufocante

correr contra a corrente

que corre nas veias.

O sangue é um selo!

Sentes orgulho?

Do soldado.

 

É amargo, o pulsar

e covarde, o destino

que me faz entorpecido.

Devoto

Quando o céu está sem nuvens

meu caminho é sem curvas

 

quando está bordado em nuvens

meu caminho é cem curvas

 

ah! É um encanto, o céu

imenso e pleno,

ao mesmo tempo.

Meu Diário Blue

Linha, traços, pedaços,

a te, me guardo.

 

Perdoe-me,

se algum dia minha lágrima,

borrar-te as páginas…

É que tenho medo, muitos.

Não se assuste… ou assuste…

Apenas abstraia-me.

 

Prometo,

esforçar uma letra bordada.

Terás uma casa sobe meu travesseiro

meus sonhos, serão tuas viagens.

Sobe a pele de meu peito, direito,

carregarei tua chave.

 

Prometo,

cuidar-te e dular-te.

 

Quando passar em branco,

é para acolher o grito que traz teu silêncio,

inverter os papeis, e ser teu manto.

 

Sinto,

que apesar de minha alma,

ser tão frágil como a material de tuas paginas,

uma vez escrito, unidos

nada rompera este vinculo.

Mais que registro, é vivo. Um.

 

Feri-me saber,

que irei borrar-te

com muitas lágrimas…

Apenas abstraia-me,

e me ame

como te amo todos os dias,

não é por acaso, Diário.

Desses dias

Dia desses,

eu quis o nunca

depois o sempre.

Dia desses,

a gente se perde.

 

Dia desses,

quis o sempre

pra ter o nunca.

Em dia desses,

a gente quase se encontra.

 

Dia desses,

todo o vermelho

era puro sangue.

Dia desses,

a gente sangra.

 

Todos os dias

o céu sugere-me

uma conversa.

Dia desses,

olhei para cima sem relógio.

 

Dia este,

entre o sempre e nunca

a pausa foi selada.

Dia este,

essa gente deixou de ser um quase.

 

Dia desses,

são dias, só.

E esse vermelho,

em algum dia, desses,

não será mais por sangrar.

Colecionador de domingos

Tinha o que tinha,

tinha mais do que tinha.

 

Tem dias que a vida,

se desenha tão simples

e fácil de ser vivida..

 

Domingos de vó e fumaça.

Domingos de criança sem idades.

Domingos de sofá sem braços.

De casos e histórias,

de fantasias entre rachaduras,

de risos de muitas rachaduras.

Domingos de casa.

 

Quanto ao lado de fora,

a hostilidade do mundo

nunca pareceu-me tão pequena quanto hoje,

o dia que passei a colecionar domingos.